Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

domingo, outubro 07, 2012

ternura

em tórrido calor
neste meio-dia implacável
as mães que vendem carvão
protegem docemente os filhos
que dormem nas capulanas às costas
com a ternura das sombras
simbólicas e doridas
que fabricam cada manhã

sábado, fevereiro 04, 2012

assim decidiu Dona Josefina

entre amendoim e caranguejo
indo folhinha de mandioca
na firmeza da colher de sal 
e no reboco do leite de coco
hoje neste dia de sol forte
a família comeria matapa
assim decidiu Dona Josefina
âncora sólida da casa

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Dona Maria

madrugada no corpo
mãos no pilão
filho nas costas
olhos indormidos
bairro do aeroporto
cidade de Maputo
em seu corre-corre
Dona Maria pila o dia
no milho da família

quarta-feira, janeiro 25, 2012

mulheres da minha terra

mulheres da minha terra
vós que produzis os dias
vós que tornais doces as noites
vós que trazeis áfrica nos ventres
eis que de vós faço as sementes
dos poemas que irão nascer

sábado, agosto 20, 2011

recordação

no último, final cabide do destino
despeço-me da peça de roupa que restava
aquela que se chamou recordação

segunda-feira, maio 02, 2011

colares

Noites que balouçam ressoando docemente sobre o Índico
como colares de búzios ao pescoço deste poema por nascer

quarta-feira, abril 06, 2011

este momento

à vida colo esta saudade/como se indo desta àquela/pudesse encontrar-te algures/entre ti e este momento

sábado, setembro 25, 2010

assim é a vida

Estendo o futuro ao comprido da noite
cubro-me com a capulana da manhã seguinte
adormeço na almofada macia da véspera
assim é a vida
simples na complexidade
nua no vestuário do passado

terça-feira, agosto 10, 2010

a leveza das hipóteses

quando tiro as rugas às coisas
dou-lhes a juventude escanhoada das possibilidades
assim enxerto em tudo a doçura dos atalhos
assim embuto em tudo a leveza da hipóteses

desvão de um dia

o que somos afinal
senão o ténue sulco
de uma saudade doce e inútil
esquecida no desvão de um dia
a que (teimosos) chamamos vida?

sexta-feira, agosto 06, 2010

encostado à noite

encostado à noite que irá chegar
envolvente como os ninhos das aranhas
folheio os instantes frescos
que habitam a varanda das acácias
e com o olhar crio o Índico
e com o Índico irrigo este poema

domingo, agosto 01, 2010

Mudança

Decidi hoje alterar o título desta blogue, criado em Maio de 2006. Tornou-se no meu terceiro diário, o diário de um poeta. Talvez com este sangue novo eu retome a produção de poemas.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Alongo a noite

Alongo a noite
até que em seus dedos
húmida e ténue
se deite a polpa da saudade
(acabo de esculpir o Índico
para nele enxertar este poema)

quarta-feira, maio 13, 2009

jeito

há um jeito de dizer as coisas
um jeito de embutir nas palavras
as palavras que não precisamos dizer
(doces e definitivas nelas embarco)

segunda-feira, janeiro 19, 2009

remudancemos a vida

Por vezes nada custa introduzir um pouco de suave ironia nas coisas do amor. Assim:

andam gentes frenéticas em seu carros mudançando
na crença errada de que as mudanças são dos carros
mas apenas tu e eu sabemos
que as mudanças são coisas damor
com a primeira lábioamonos
com a segunda descemonos
com a terceira aceleramonos
com as outras velocidades
que sempre são muitas nas ternas coisas do amorar
eternizamonos com a alma no horizonte
tudo sem travessão tudo sem perímetro

vamos remudancemos a vida em seu jeito docefluvial
embraiemos como os barcos fazem às velas