Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

segunda-feira, julho 31, 2006

Três

A linha recta, ática mãe de tudo, foi inventada pelos deuses, sabias? Olha, nenhum de nós saberá jamais quantos pontos ela pode conter, mesmo a mais pequena, mesmo aquela que nem fugaz é, mesmo aquela que é mero ponto. Quanto ao real ponto, sabes, esse é lamentavelmente apenas isso, um ponto, sem horizonte, no qual e para além do qual não há espaço nem para ti nem para mim. Que pena não termos habitado o ventre da linha recta, querida! Que tristeza não a termos adubado com o três, aquele belo filho transgressor dos dois! Que ponto sem destino, que destino sem linha!

domingo, julho 30, 2006

Desembarcar em ti



(Para Campo Meu, neste e em todos os poemas aqui)

Todos os dias sabes
me despeço de mim
passageiro do horizonte
apressado vertigem
atónito sentidos em riste
para nas sempre curtas viagens
sem paragens sem freios
desembarcar em ti no tumulto
desta viagem afinal sem fim
neste meu ser prenhe de ti
_________________________
"Actual danza de cuerpos", acrílico da pintora, poetisa e escultora mexicana Cristina Ruiz.

sábado, julho 29, 2006

Sou-me porque me és



Os dias só têm sentido quando, na sua nascente, na cascata de ti, me agasalho com a tua alma e nela construo a secreta gruta de sentir-te, artéria de me ser. Nunca me digas dos poentes, nunca me fales da foz, nunca me cantes o ponto final. Madrugadas? Ah sim, mas as madrugadas não nascem nem morrem: são tu, nesta gesta-fénix doce de inventar cada pomo de ti, este infinito estremeção que me percorre percorrendo-te. Escuta, definitivamente: sou-me porque me és.

_____________________
"Perdendo-me em ti", acrílico de Cristina Ruiz, pintora, escultora e poetisa mexicana.

sexta-feira, julho 28, 2006

Tristeza


I
Toma a palma da minha mão
Repara como rigorosamente
A tristeza nela se agachou
Corpórea absoluta dorida

II
Toma a palma da minha mão
Repara como rigorosamente
A tristeza dela escorre agora
Imparável abundante viscosa

III
Toma a palma da minha mão
Repara como rigorosamente
As madrugadas têm um fim
___________________
Abaporu (1928), quadro da pintora brasileira Tarsila do Amaral. O meu obrigado à Júlia pela informação.

Poemas de amor para ti

Com o título em epígrafe, será lançado em Setembro um livro contendo uma parte significativa dos poemas deste blog.

terça-feira, julho 25, 2006

Unindo-nos

Quem te disse
Que em ti penso?
Não, jamais te penso
Não, não vou pensar-te
Vou sim e apenas sentir-te
Porque se te pensar divido-te
Se te sentir uno-te unindo-nos

quarta-feira, julho 19, 2006

Moldura

Estás aqui nesta moldura verde
Passo as mãos pela tua ausência
Encosto a minha alma ao teu regaço
Desabotoo lentamente o teu perfil

Deito-me finalmente no passado
Agarrado às mãos do teu sorriso
Em mais esta madrugada fria

Lei

Já viste que nenhuma união tem sentido sem uma desunião? Que nenhum amigo tem sentido sem um inimigo? Nenhuma paz sem uma guerra? Nenhum presente sem um futuro? Nenhum deus sem um ser humano? Nenhuma saudade sem uma presença? Nenhuma alegria sem uma tristeza? Nenhuma fome sem uma saciedade? Nenhuma vida sem uma morte? Nenhuma ponte sem uma porta? Nenhum amor sem ti?

Sendo-te a diagonal de dois em mim

I
Sim amor o amor minha querida
é este amor que gera esta paixão
que parece fogo na alma e na carne
isto de te urgentar a cada momento
esta coisa densa forte íntima infinita
este fósforo que é tão tão tão grande
que vê tu acende mesmo sem acender
carvão em brasa mesmo adormecido

II
Mas ouve este amor é também conflito
amor desamor são dois irmãos gémeos
são serão duas coisas numa mesma coisa
Tu sabes meu amor que o meu desamor
forte agressivo cruel sem razão para ti
é também a minha declaração de amor?
Quem te disse meu amor que as coisas
São assim uma num lado outra no outro?

III
Olha o meu amor tem dois corações
amor o amor é sempre isso mesmo
uma coisa duas coisas sempre uma
não há nunca coisas homogéneas
apenas há coisas sempre diferentes
mesmo tu meu amor és diferente de ti
tantas vezes vê lá tu sem disso saberes
no teu aparente eu único uma peça só

IV
Sabes amor este dual amor é afinal
a inesgotada fiel tensa busca de ti
a mesma lanterna apontada para ti
a mesma bússola dando o teu norte
E se queres saber tudo afinal agora
sabe que te amo e amarei três vezes
quando te amo te desamo e te reamo
sendo-te a diagonal de dois em mim

terça-feira, julho 18, 2006

Em tua tomada


Vê comigo como o sol se põe
sente comigo como tudo parece ir
no ser e no deixar de ser repentino
neste sempre complexo sendo a ser
mas ressente como em tua tomada
nesta vertigem repentina e quente
eu sou sempre a tua ficha sôfrega
e nos tornamos ontem hoje amanhã
neste nocturno e infinito amplexo
a faísca fantástica de sermos tu-eu

Vá meu amor suicidemos os fusíveis!

domingo, julho 16, 2006

Seio-poema


Seios-mãe, seios-sexo, duas coisas, uma só coisa, uma ponte entre duas idades, um só ponto em todas as idades. O que é o seio-sexo senão a traquinice projectiva da criança que habita o homem? O que é o seio-mãe senão o futuro retroactivo de todos os homens? O que é um seio senão a coluna vertebral afectiva e total de qualquer homem, o seu coração tenso de Jano? O que é um seio senão um ser híbrido que habita a criança-homem de todos os homens sempre crianças? O que é isto, afinal, senão um seio-poema, senão uma mulher em cada uma das minhas palavras-crianças-homens?

sábado, julho 15, 2006

Mulheres da minha terra


Mulheres da minha terra!
Ó belas filhas do mar!
Ó parteiras da vida!
Ó mulheres da mêijoa!
Mêijoaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, julho 14, 2006

Deixa-me ser-te rio


Vem revem meu amor
Não te ausentes de mim
Não me desabites agora

Oh não, não me deixes
Ser-te apenas soleira
modesta fímbria de ti

Vem revem meu amor
Deixa-me ser-te rio
ser o meu-teu Zambeze
Caudaloso permanente
Entre tuas coxas
minhas margens
Oh meu amor-leito

quinta-feira, julho 13, 2006

Te reencantar

Quando todos os dias te ajoelhas diante dos sonhos
e lhes pedes que te beijem a palma das esperanças
os escolhos que te perturbam, pesados e bisonhos,
se retesam então para te reencantar como lanças

Escopro

És o escopro doce do afecto e do doce laço
bates, modelas, adoças, no ser e no fazer
é nesse interminável processo que nasço
para, devagar, sem fim, te corresponder

quarta-feira, julho 12, 2006

Mas agora ficas a saber


Sabes que este poema é um parto de ti? Sabes que no ventre destas exactas palavras vai o eclipse do ontem enquanto te madrugo em novo espasmo táctil e sem perímetro? Sabes que no futuro deste invólucro de mim viaja a sisífica busca de ti? Sabes que cada gesto meu é uma artéria na qual pulsas? Sabes que mobilo cada silhueta da noite com o recheio do em-ti? Sabes que sei que não sabias? Mas agora ficas a saber.

Parturiente deste dia



Vem minha doce rainha da savana
Vem comigo beijar o nascer o sol
Vem comigo esculpir as gazelas
Vem comigo inventar as rolas
Vem comigo amar o cacimbo

Vem rainha da savana
Vem princesa do sol
Vem filha do pólen

Vem parturiente deste dia

segunda-feira, julho 10, 2006

Mamana Maria



Manhã cedo
Mamana Maria
Saiu foi
Dumba nengue
Como cada dia
Senta-abaixo
Sol é sombrinha
Filho às costas
Capulana
De sempre
Carvão para vender
Badgia para vender
Amendoim torrado
Ficou
Ficou
Ficou
Dinheiro
Quase nada
Apanhou chapa
Noite alta
Chegou casa
Fez comida
Marido esperava
Deitou-se
Esteira
Cansaço
Foi travessão
Marido serviu-se
Maria não soube

Os degraus de ti


Amo ver a manhã subir os degraus de ti. É como se os sonhos te esculpissem dentro de mim e eu me tornasse, súbito, a margem da vertigem.

Corola matutina


Era o cacimbo dos sentidos que te humedecia as comissuras dos lábios e os seios cor de pudor quando teu colo se abriu num arrepio de corola matutina com a brisa dos cabelos.

Destino tornado vida


Náufrago de mim, órfão de ti, eis-me chegado para na tua doce enseada finalmente repousar. E é com a cabeça apoiada nos teus sonhos, é com minhas mãos despindo os teus sentidos polpa a polpa que, sangue por ti bombado, âncora levantada, proa erecta, velas libertas e leves como gazelas da savana eterna, embarco de novo, mas desta vez para dentro de ti, no preciso momento em que, ao meio dos teus seios juvenis como água de lanho, a noite dá à luz a fantasia das coisas totais e os deuses se comprazem com o destino tornado vida na areia desta praia.

De novo ser teu


És a onda que me levas o sonho onde me deito
Quando entras para sair a ti sempre chego eu
Um dia dirás cansada olha lá que falta de jeito
Mas eu aproveitarei logo para de novo ser teu

Rés ao sonho


Quando rés ao sonho te reencontro
Sempre há uma maneira de falar
Maneira simples que não tem conto
E que consiste apenas em te amar

Acme


Como uma pétala do tempo, doce e leve,
Passas devagar, no perfume do que pedi
Por isso neste em-mim que muito te deve
Me permito o acme de inventar-te aqui

domingo, julho 09, 2006

Báscula


Só sou sendo-te neste movimento de báscula infinita entre mim e ti.

sábado, julho 08, 2006

Teu-em-ti


Quando deusas um dedo nos lábios e esculpes brevemente o teu-em-ti é como se entre dois gomos frescos eu me encaixasse como uma vertigem absoluta.

Saudades


Quão estranha é esta vida, minha princesa!
sabes, sinto saudades não quando te deixo
mas quando te encontro, no agora ter-te
é como se, diante de um belo sonho,
eu não o tivesse tido por o ter tido.
Quão estranha é a vida, princesa,
quão ausente é a tua presença!

Mas, também, minha doce princesa
quão belo este sentir-te duas vezes!

quinta-feira, julho 06, 2006

Deixa-me


Deixa-me ser o amanhã do teu ontem
Deixa-me ser o futuro do teu hoje
Deixa-me ser sendo-te neste agora

Sempre sim


Quando à noite dormires total e calma
Sonhos te afagarão no arrepio do em mim
Eles te madrugarão das mãos a palma
Eles te pedirão que digas sempre sim

Ponte


Olha, olha para aqui, olha este sonho
Ele tem tua dimensão, teu horizonte
Quando sais e me deixas, logo ponho
Dentro de ti a alegria de uma ponte

Estrada


Um dia um deus perverso e bom
Inventou uma estrada daqui até aí
Mas porque lhe era caro o dom
Tirou-a para eu ficar junto de ti

Quando te horizonto


Sou sempre o frémito dos dedos
Quando te horizonto no acontecer
E sinto tudo menos os medos
No doce sonho de te pertencer

Sê minha muchem


Sim, claro, querida, todos sabemos o que é o amor. Uma palavra, uma interpretação, sentimento, conjunto de actos, efervescência, pico dos sentidos, coisas assim. Mas poucos sabem que nenhum amor, aquela coisa espamódica que vai-vem entre o coração e o baixo-ventre, sobrevive à formiga muchem do tédio. No dia em que não te espantares, no dia em que não sentires o espasmo, a vertigem, serás, definitivamente, o morro das formigas muchem saciadas com o teu devorado vai-vem.
Vá, doce transgressão, sê minha muchem, serei tua presa!

Ombros teus ombros



Sabes onde começa o centro vital, a alma de uma mulher? Começa sempre nos ombros. É pelos ombros que trilhamos e ancoramos todas as divisões espantosas de uma mulher, todos aquelas células visíveis e invisíveis dela, próximas distantes, agora sempre, tuas minhas. Quando um ombro de mulher, o teu ombro se retesa como um penedo e se distende pouco a pouco como um ventre pacificado, como faz o teu, agreste primeiro doce depois, tumultuoso primeiro sereno depois, fruto de uma mão masculina, a minha, que nele deposita os sentidos integrais de um pedido inadiável ; quando isso acontece, mulher das minhas eternas e consecutivas noites, é porque foi aberta a corola. E, então, doce mulher, tu és o meu cálice definitivo, cujo conteúdo, de tantas partes de ti, de tantas pétalas, sorvo ininterruptamente, sístole e diástole noite dentro.

quarta-feira, julho 05, 2006

Habitar-te


Guarda-me
em ti
deixa-me
habitar-te
ser-te
sermo-nos

Colho-te


Vou ao horizonte
e colho-te
a um tempo
quente e fresca
rija e dúctil

A ti
eterna subversão
dos meus sentidos

segunda-feira, julho 03, 2006

Sonhos contidos


Cada um dos meus sentidos é um poema erecto de sonhos contidos, sabias? Um girassol para ti erguido, uma reverência contínua a ti.

Poemar-te


A única nação
destes poemas
é serem
rigorosamente
poemas de amor

A única bandeira
destes poemas
minha
mulher-mundo
mulher-tudo
consiste
em poemar-te
rigorosa
eterna

Mulher-vagem-de-mim


Que me importa
se és jovem
velha
magra
gorda
alta
baixa
se o que me importa
é que és bela?

Que me importa
se és negra
amarela
branca
mista
sem cor
se o que me importa
é que te amo?

Que me importa
se és camponesa
operária
estudante
professora
escriturária
urbana
rural
se o o que me importa
é que és mulher
e todas as mulheres
devem ser amadas
totalmente amadas?

Não conheço
raças
idades
critérios de beleza
profissões
apenas te conheço
a ti
mulher-vagem- de-mim
mulher-em-si!

Pólen-poema


Escuta: quando passamos as palmas das mãos por uma flor, vez que vez, docemente - sente lá comigo! -, quando nos espraiamos pelo cálice, pela corola, pelo seu terno perianto de estames e gineceu, pelas folhas, pela sensação absoluta, pela sensação da sensação sem fronteiras; quando a nossa sensibilidade se agudiza, se erecta na motricidade fina e flor-sentimos, é como se sentíssimos por inteiro no corpo, por ricochete, por dádiva divina, os pesos diferentes de várias carícias, como acordes vários mas unidos numa doce sinfonia táctil e interminável.
Assim sinto em meu corpo as tuas mãos-gineceu e por isso gero este pólen-poema em minhas anteras gratificadas.

domingo, julho 02, 2006

Nas pétalas de cada noite


Só ambos sabemos onde fica aquele exacto, arquimédico ponto, aquela espantosa fronteira sem fronteira, lá onde os carangueijos beijam as conchas, o mar ama a areia da praia e nós, febris e jovens, seguimos o exemplo, nas pétalas de cada noite, nos trilhos de cada espanto renovado.

Clímax


Folheio
docemente
os teus sentidos
um a um
sublinho-os
devagar
ressalto uns
deixo outros
de reserva
para depois
os sublinhar
E assim
toda a noite
eu te leio
releio
anoto
para
madrugada
chegada
ler a
tua última
a mais bela
página
no clímax

Sem dor


Todos se interrogam desde sempre sobre o amor
Todos dizem saber dos seus muitos mistérios a cor
Mas acontece que apenas eu soube e sei com ardor
Que foi graças a ti qu´um dia ele madrugou sem dor

Pau-preto


Sabes
quando desnudo
o meu coração
e o deito
em teu ventre
sinto tudo forte
na vida
sinto-me
pau-preto

sábado, julho 01, 2006

Demasia de ti


Singular destino o das palavras e dos travessões, bizarra história a das coisas cheias do nosso eu! Repara, eu digo amo-te e vê tu como o amo, que sou eu, é maior do que o te, que és tu. Como podes tu seres tão pequena no te e eu tão grande no amo, quando quem eu amo és tu e a demasia de ti não cabe no te e o meu amor apenas em ti tem sentido? E para quê o travessão se nos somos? Dizes-me que é uma ponte? Está bem, essa ponte pode ficar, então.