Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

domingo, agosto 27, 2006

Búzio de ti

Os búzios são os ouvidos
que o céu me deu
para te trazer para mim
quando a terra me dá a distância

Por isso inventei o mar
que todos os dias me faz presente
em cada búzio de ti
em cada ti de mim

sábado, agosto 26, 2006

Missangas

Os deuses inventaram
as missangas
para que um dia
no momento em que o mar
embalar as conchas do futuro
nesta areia eu te enfeite
com os beijos das marés
quentes e doces

No ventre deste poema


Quando passas
meu fascínio
passo estugado
silhueta estival
alongada para o futuro das noites
eu saio de mim
e te alcanço no exacto momento
em que transpões o umbral
da vertigem
com que te moldei
no ventre deste poema
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Acrílico da pintora, poetisa e escultora mexicana, Cristina Ruiz.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Gérmen do passado

Repara em todo este horizonte
que inventei bago a bago
para ti
neste exacto momento

Mas repara também como
apesar da sua imensidão
é possível sentir-lhe a angústia
a sua espantosa pequenez
este bater de coração sem fim
que até os horizontes possuem
quando a saudade os apoquenta
as lágrimas estão insones
e o futuro
o futuro incuba
o gérmen do passado

Repara bem quanto
a própria tristeza
nele se pode sentir cativa

neste horizonte enfraquecido

de apertada
de cingida
de dorida
mesmo se vestida
pelo doce cacimbo
libertador das manhãs

(sabes que os pássaros
são filhos do horizonte?)

sábado, agosto 12, 2006

Amor-areal no rio Zambeze


Sempre os achei estranhos
a esses doces pirilampos
esses elegantes vaga-lumes
que iluminam a crista dos sonhos
razando enigmáticos o canavial
arrastando na noite a sua solidão
na noite como se a noite fossem
noite logo espantosamente reduzida
àqueles minúsculos pontos iluminados
pontos ternos com tochas às costas

Mas hoje pensei melhor sobre eles
e decidi que afinal não é isso
a coisa é bem mais complexa

e ao mesmo tempo muito simples
pensei que eles têm um sentido
tactilmente premonitório
fluvialmente eterno e belo

Sabes, penso que os pirilampos
são enviados pelos deuses fluviais
quando as noites estão carentes
e nós, tu e eu, deles ansiamos
que pelas mãos dos espíritos manhungè
eles, os pirilampos, uma vez mais cheguem
para discretos mas sempre intermitentes

(no mais doce quarto do nosso rio vulvar)

saudarem este amor-areal
na polpa do sonho recorrente
no seios de mais uma madrugada
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Reacordo o rio da minha infância, o Zambeze em Tete, minha cidade natal. E desde pequeno que sei que os espíritos do povo Nhunguè nele habitam, eles, os protectores das nossas memórias e dos nossos sonhos. Os pirilampos são, afinal, manhunguè, nenhuma animosidade étnica em dizer isso.
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Acrílico de Cristina Ruiz, pintora, escultora e poetisa mexicana, com o título “Hasta el infinito”.


sexta-feira, agosto 11, 2006

No leito do horizonte


Em ti teço
o púlpito das manhãs
Em ti sou o milho
que o teu ventre germina
Em ti nasço
nascendo-te
neste preciso momento
em que inauguramos o futuro
no leito do horizonte
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Foto de uma escultura de Auguste Rodin

Os filhos do sol


Ó princesa do rio
Ó êmbolo dos meus sonhos
sentes tu o bafo desta ânsia
sentes tu esta urgência
apressada
inadiável
húmida
filha dos espamos
carne dos sentidos
retesada
neste arrepio sem fim
que apela a cada país de ti
que te busca
te faz
fazendo-me
fazendo-nos?


Ó princesa fluvial
Ó doce espírito dos canaviais
vem comigo inventar o areal
vem comigo fazer
os filhos do sol
sê-me a nascente
sejamos a foz
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Foto de uma escultura de Auguste Rodin

domingo, agosto 06, 2006

Almo-te


(Para Campo Meu)

Se alma vem de ti
Almo-te vem de mim
Sou a crista deste caminho
Desta saga sem fronteiras
Que de mim sai e a ti chega
Sem nunca a ti chegar
Porque de ti nunca saiu.


(Acrílico de Cristina Ruiz, pintora, poetisa e escultora mexicana)

quinta-feira, agosto 03, 2006

No prelo

terça-feira, agosto 01, 2006

Vento

Sou o vento manso das savanas
Aquele que embala o restolho
E abraça o murmúrio dos dias
Não sabes quem sou
Sabes apenas que sou
No exacto momento
Em que te beijo os cabelos
Doce fugaz eterno