Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

sábado, agosto 12, 2006

Amor-areal no rio Zambeze


Sempre os achei estranhos
a esses doces pirilampos
esses elegantes vaga-lumes
que iluminam a crista dos sonhos
razando enigmáticos o canavial
arrastando na noite a sua solidão
na noite como se a noite fossem
noite logo espantosamente reduzida
àqueles minúsculos pontos iluminados
pontos ternos com tochas às costas

Mas hoje pensei melhor sobre eles
e decidi que afinal não é isso
a coisa é bem mais complexa

e ao mesmo tempo muito simples
pensei que eles têm um sentido
tactilmente premonitório
fluvialmente eterno e belo

Sabes, penso que os pirilampos
são enviados pelos deuses fluviais
quando as noites estão carentes
e nós, tu e eu, deles ansiamos
que pelas mãos dos espíritos manhungè
eles, os pirilampos, uma vez mais cheguem
para discretos mas sempre intermitentes

(no mais doce quarto do nosso rio vulvar)

saudarem este amor-areal
na polpa do sonho recorrente
no seios de mais uma madrugada
_______________________
Reacordo o rio da minha infância, o Zambeze em Tete, minha cidade natal. E desde pequeno que sei que os espíritos do povo Nhunguè nele habitam, eles, os protectores das nossas memórias e dos nossos sonhos. Os pirilampos são, afinal, manhunguè, nenhuma animosidade étnica em dizer isso.
_______________________

Acrílico de Cristina Ruiz, pintora, escultora e poetisa mexicana, com o título “Hasta el infinito”.


4 Comments:

  • At domingo, agosto 13, 2006 3:51:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Lindo, lindo, lindo poema.
    kate

     
  • At segunda-feira, agosto 14, 2006 5:04:00 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Amante Poeta meu?...ouve o meu grito:
    Ó espíritos do rio
    bem sabes que meu olhar
    é verde - vaga-lume...
    tudo cintíla...tudo reluz...
    não permita ao meu amor
    fazer odes a pirilampos
    muito menos deixar vulvar
    em tua doce morada...
    Zambeze do meu encanto!
    molhastes o menino...amante meu agora;
    Sejai meu cúmplice...peço-te!
    Salga esta água tua
    fecha "nosso" quarto - tranque-o agora;
    Não permitas invasão
    bem sabes das razões...
    egoísta não sou
    mas...meu amor se perdeu
    na luminosidade desta noite
    pensando ser um pirilampo
    o verde-sumo luz
    destes olhos meu!

    Basta vaga-lumes
    a quem tenta enganar?
    saia desta terra - campo meu
    vê o horizonte?
    segues para além deste já...
    porque lá
    é tambem território meu sabias?
    vê...o meu amor...deitado?
    espera meu chegar...
    já estou seguindo amor meu...
    para em teu corpo entregar
    tudo que os espíritos e o zambenze
    me fizeram ritual
    ato de amar continuo...
    em teu peito amante
    descansar...repousar...pousar!!!

     
  • At domingo, agosto 20, 2006 7:32:00 da tarde, Blogger L. said…

    Espero por todos os livros de que fala, aqui e no outro blog, com grande expectativa.
    Gosto muito deste seu poema.

     
  • At segunda-feira, agosto 21, 2006 1:04:00 da tarde, Blogger Carlos Serra said…

    Obrigado, Ermelinda.

     

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