Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

sábado, setembro 30, 2006

Utopia

Hoje solenemente proclamo este dia
o dia da utopia
o dia das coisas densamente realizáveis
o dia em que os sonhos que somos nos são

Me dizes que a utopia é coisa que não se realiza nunca?
Mas não, estás enganada completamente enganada
a utopia é sonho que dia a dia se realiza
espanto a espanto
que se cumpre na juventude das albas
utopia é isto de nos fazermos
em cada semente do amanhã
no cacimbo que protege cada ninho dos sonhos
utopia é uma genuflexão do passado diante do futuro
utopia é isto de eu te dar vida
nos cílios do vento
nas encostas das madrugadas
nas coxas do futuro que é hoje
aqui onde és o êmbolo deste poema

Sabes que quando te canto
as estrofes se ajoelham
e a melodia se retesa
à porta do meu êxtase?

segunda-feira, setembro 25, 2006

Regaço

Desenho ao longe o último alento da fogueira
e deito docemente o rio no teu regaço

domingo, setembro 24, 2006

Os versos do teu sim

Quando um pássaro levanta voo em cada dia de mim
disputo aos deuses o direito de criar cada palmo de ti
e assim no regaço dos poemas que ainda não escrevi
acrescento mais um verso para os versos do teu sim

Eu inventei a saudade

Hoje é o dia em que me tornei nómada
emigrei para aqui à esquina de mim
à sombra da saudade de ti
total neste busca de cada viagem

Para aqui trouxe todos os cais da vida
todos os aeroportos
todos os apeadeiros
tudo o que parte e chega partindo indefinidamente
tudo o que no fugaz tem a solidez inexorável do ido

Como é fascinante esta física densa sensação
de me ver partir no roçagar de uma vela
na vertigem inesperada de um avião
na mornidão enigmática de um comboio
nesta sensação fantástica de infinito móvel

Quem de nós emigra de nós
quando se chega partindo?
Quem de ti me deixa neste barco
neste avião neste comboio
neste poema que em ti madrugo?

Eu inventei a saudade para não me despedir de ti

quinta-feira, setembro 21, 2006

A almadia e o rio

Olha olha bem para esta almadia
trouxe-a para ti colada ao Zambeze
tu sabes o que é esta almadia?
dizes que sim aquiesces firmemente
mas eu vou falar-te da alma desta almadia
vou contar-te a sua história secreta e eterna
repara como ela parece ser apenas isso uma almadia
um pedaço de madeira escavado um remo tosco
o movimento compassado o vai que vai espesso como o tempo
mas olha esta é uma almadia que é almadia e não é almadia
que é realidade e que é sonho que é nós e que é querermos ser nós
se sentires comigo verás que a almadia é duas coisas ao mesmo tempo
é uma mão feminina que acaricia docemente o rio por horas inteiras
e nessa carícia perfeita é como se a almadia fosse rio e o rio almadia
tu só podes sentir isso se fores ao mesmo tempo almadia e rio
mas não sejas assim tão simplista tão redutora
sabes esta almadia é ainda outra coisa sem deixar de ser ela
sente bem dentro de ti que vez que vez
aquela harmonia infinita se agita fortemente
ancora bem dentro de ti aqueles espasmos que a almadia tem
como se o seu destino tivesse de repente e de forma repetida encontrado
a fala subversiva daquelas fantásticas e súbitas trovoadas
que povoam a savana
naqueles múltiplos movimentos de prazer
que não cabem nas minhas palavras
o que se passa meu amor
é que a almadia é repetidamente possuída pelo rio
num amplexo que devora o horizonte
e assim é dia a dia dia e noite noite e nós sonho-entre-nós
sem pausa sem rotina sem cansaço
por isso tu vês e sentes bem quanta água enche agora a almadia
quanto prazer líquido de saciedade a faz estremecer docemente
nestes orgasmos protegidos pelos voos premiadores
das garças e dos patos e dos pica-peixes

O que nos resta minha terna habitante
senão sermos as margens aprovadoras e executoras desse destino?

domingo, setembro 17, 2006

Comboios

Os comboios
são versos tristes
quando amputados de ti
neste apeadeiro que nunca te fui

Os dedos deste poema

A leveza tensa e doce
de uma bauala* que salta
na savana extensa
está anichada nos teus rins
quando sobre eles
escrevo os dedos deste poema
_________________
*Antílope um pouco maior do que a gazela

O fim dos diques

Com as mãos construo em ti a estrada dos sentidos, os meus dedos são as tuas portagens.
A geografia dos clímaxes tem em ti o relevo fundamental.
Não, não serei estrangeiro a essa vertigem.
À sombra deste poema serei a paisagem que pedires, a profundidade que desejares, a transgressão que impuseres.
Doemos a planície à rotina e habitemos as montanhas no voo da águia inaugural.
Em cada lonjura está o fim dos diques.

Ponto final

És um ponto de interrogação que cada vírgula de mim ameniza sempre que os teus dois pontos me tornam tenso e eu busco a certeza de me seres o ponto final.

Os filhos da alba

É sob esta chuva
densa doce aguda
erecta na persistência
que neste quarto do horizonte
fazemos os filhos da alba

Janela das noites

Cada estrela
é um espanto de ti
uma semente tua
quando abro
a janela das noites

Maré alta

Cada vez que mergulho nos teus olhos
a dança lânguida das gaivotas
anuncia a chegada densa da maré alta
em cada vaga deste poema
em cada espuma que em ti planto

Te semeei

Não é quando partes que sofro
não é quando chegas que sofro
por saber que partirás
não é quando nos amamos
que sofro pelo fim
não é pelo fim
que sofro pelo princípio
de cada fim

É quando fatalmente sinto
que foi a saudade quem te criou
na minha margem de ti
à beira de mais este poema
onde de novo te semeei

Na esteira do infinito

Recorto ao longe a última noite
e trago-a lentamente pelo rio
remando com o xigomana* nascente
que atravessa os sonhos do canavial
E no mais banal dos actos humanos
colho as estrelas uma a uma
e as deito junto de nós
debruadas com esta lua
que te ofereço sonho a sonho

Agora doce mulher da savana
ainda temos um tempo imenso
aqui na margem da dança
aqui na esteira do infinito


Os sentidos nos chamam
os deuses já se deitaram
neste poente da tua capulana
__________________
*Dança do sul de Moçambique

quarta-feira, setembro 13, 2006

Dois gomos


Inventei os teus lábios
dois gomos
e agora todos os dias
deles faço o trilho
persistente
destes poemas
que são tu
habitando-me

(sabes que os deuses
aprenderam connosco
a beijar?)

domingo, setembro 10, 2006

Poemas de cada ti

Belos e anónimos pássaros

que formam bandos estivais

em volteios de espanto

sempre que te beijo

com os lábios de cada poema
nos poemas de cada ti

sábado, setembro 09, 2006

Planto-te

Planto-te em cada poro de mim
Neste campo sem fim que te sou

(repara como as rolas sabem disso
e por isso voam rés a este poema )

Poema erecto

Os deuses me deram a madrugada
mas com a cola dos meus sonhos
neles colei docemente os teus seios
quentes túrgidos vibrações de gazela
nesta manhã quando o rio dormia ainda
e a savana acariciava a lonjura

Descendo pelas ladeiras de ti
arrepio ante arrepio
carícia após carícia
no trilho doce da anteaurora
sob os olhos do embondeiro
guardião sereno do nosso futuro
a eles teus meus seios cheguei
coração estugado virilha ansiosa
para na memória do orvalho fluvial
gravar este poema erecto

quinta-feira, setembro 07, 2006

Recomecemos


Crianças feéricas a montante
Graves, pálidos a jusante
Em todo este doce jogo de amor
Em toda esta vertigem dos rins

Depois, distendidos os sentidos
Pausados os dedos do clímax
Aprendemos que o destino dos rios
É o de serem este êmbolo caudaloso

Recomecemos, doce amante
_________________
Escultura de Auguste Rodin

Sonho


Deitado no teu sonho
Tranquilo em minha memória
Folheio devagar o futuro que me és

Distante, o último bando de pássaros estivais
sobrevoa o rio em toda a extensão deste sonho
__________________
Escultura de Camille Claudel (1864/1933)

sábado, setembro 02, 2006

Blooks


Blooks= livros com conteúdos saídos de blogues.
http://en.wikipedia.org/wiki/Blook

A vida

Quando nas longas jornadas dos trilhos do amor
quantas vezes duras tantas vezes indecisas
subimos os degraus vastos da alma
sempre descobrimos na palma do nosso olhar
que no muro traquina de tudo na vida

raiva temor ciúme agressão desespero

se acotovelam afinal as crianças que somos
abraçando ao mesmo tempo em seu destino
a raiva que nos gruda aos caminhos sem saída
e o amor que nos reembarca na busca de ambos

A vida é este ser de nos sermos
como, sente lá, um desenho atónito
e sempre acabado no seu inacabado