Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

quinta-feira, setembro 21, 2006

A almadia e o rio

Olha olha bem para esta almadia
trouxe-a para ti colada ao Zambeze
tu sabes o que é esta almadia?
dizes que sim aquiesces firmemente
mas eu vou falar-te da alma desta almadia
vou contar-te a sua história secreta e eterna
repara como ela parece ser apenas isso uma almadia
um pedaço de madeira escavado um remo tosco
o movimento compassado o vai que vai espesso como o tempo
mas olha esta é uma almadia que é almadia e não é almadia
que é realidade e que é sonho que é nós e que é querermos ser nós
se sentires comigo verás que a almadia é duas coisas ao mesmo tempo
é uma mão feminina que acaricia docemente o rio por horas inteiras
e nessa carícia perfeita é como se a almadia fosse rio e o rio almadia
tu só podes sentir isso se fores ao mesmo tempo almadia e rio
mas não sejas assim tão simplista tão redutora
sabes esta almadia é ainda outra coisa sem deixar de ser ela
sente bem dentro de ti que vez que vez
aquela harmonia infinita se agita fortemente
ancora bem dentro de ti aqueles espasmos que a almadia tem
como se o seu destino tivesse de repente e de forma repetida encontrado
a fala subversiva daquelas fantásticas e súbitas trovoadas
que povoam a savana
naqueles múltiplos movimentos de prazer
que não cabem nas minhas palavras
o que se passa meu amor
é que a almadia é repetidamente possuída pelo rio
num amplexo que devora o horizonte
e assim é dia a dia dia e noite noite e nós sonho-entre-nós
sem pausa sem rotina sem cansaço
por isso tu vês e sentes bem quanta água enche agora a almadia
quanto prazer líquido de saciedade a faz estremecer docemente
nestes orgasmos protegidos pelos voos premiadores
das garças e dos patos e dos pica-peixes

O que nos resta minha terna habitante
senão sermos as margens aprovadoras e executoras desse destino?

4 Comments:

  • At sexta-feira, setembro 22, 2006 8:00:00 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Amor da minha vida...

    Olhei...olho ainda
    Sinto...sinto ainda
    Almadia
    Rio
    Horizonte
    Amplexo
    Remo
    Tempo
    Movimento
    Savana...
    Sinto...sinto ainda
    vida lapidando, tosco sentimento...
    que,não nasceu de mim,nem mesmo de ti.
    Até que meu amor,em mim chegasse
    (remo acaricía rio),(rio acaricía remo)...
    Fui almadia embrutecida,esquecida,
    jogada num canto qualquer das savanas tropicais...estava "bom" assim...acolhida numa inércia tolerável...tolerável...sem áis de mim ...
    Mas,a inquietude que me faz marca
    não pensava assim...
    declarou então guerra secreta
    clamou chuvas e temporais,ventos e ventanias...
    arrastou-me para margem do rio...
    este...tocou-me em delicados líquidos molhados, derramados...e, num processo de erosão construtiva...dia após dia,noite após noite...burilou-me...moldou-me
    puxou-me para si...
    fui levada por um sonho
    que sabemos não ser sonho
    não te culpo...não me culpo
    foi o rio
    em sua envergadura
    colheu-me...acolheu-me...recolheu-me...
    amada criatura...criação que ti és
    ouço uma canção...suave xarda
    vamos amor...ebulição...ebulição
    não paremos aqui
    o horizonte está logo alí
    querendo nos devorar
    em amplexo,beijo...desejo...
    em nós avidez
    nenhum talvez...
    nenhuma margem...
    somos centro...ponto central
    desta história,deste rio,desta almadia...
    queremos os espasmos,os orgasmos das carícias...
    dos teus meus dedos imateriais
    tocando no que é visto no universo,
    para unir ao que não é visto.
    Meu amor revelou-me que os vôos das garças e dos patos e dos pica-peixes
    são visões que sucumbem ao êxtase
    da explosão...da plenitude...
    que antecede o gozo...a vontade,o prazer!

    (Compreendes minha eterna habitação,que o momento presente contém todo o tempo...e dentro dele está tudo que pode ser esperado, feito e imaginado?).

     
  • At sábado, setembro 23, 2006 12:10:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Nunca pensei que se pudesse falar de amor a proposito de uma almadia e do rio...Lindo, lindo mesmo virei mais vezes agora

    Lara

     
  • At sábado, setembro 23, 2006 1:47:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Quanta beleza meus olhos e sentidos estão vendo.Que maravilha esta troca de sentimentos que não sei até onde vai a veracidade ,entre o poeta e a leitora anônima.Não sei ainda,quem escreve com mais sentimento e profundidade,com mais entrega e poesia.A pergunta que não quer calar:voces se amam de verdade?Voces fazem acordar e acreditar que o amor existe de facto.Estão ambos de parabéns e que continuem nos presenteando com tão belos gestos.Me parece que estou lendo um livro,já li todos os poemas de voces,mas ficava apenas na observação e admiração.Hoje não deu mais para segurar,
    Flores e frutos desejo-lhes

    Aldaci

     
  • At domingo, setembro 24, 2006 8:00:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Um eterno balsamo. Continuo aqui.Bjs

     

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