Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

terça-feira, outubro 31, 2006

Sou-te na savana

Assalto a lonjura para te roubar os seios
aos teus cabelos encosto a carícia fluvial
com os braços do vento sou-te na savana

domingo, outubro 29, 2006

Memória

Docemente me deito na memória
docemente apago ao longe a última réstea da luz da tarde
docemente recosto a cabeça na saudade de ti

sábado, outubro 21, 2006

Apreciação de Ezra Chambal



Semanário O País, edição de 13/10/06, p.15. O título que surge na fotografia não é a do livro, mas uma primeira formulação, surgida neste blogue.

Vem comigo

Vem comigo ver nascer o dia
vem comigo acordar o sol
vem comigo inaugurar as acácias
vem comigo beijar o Índico
vem comigo desenhar as andorinhas
vem comigo soltar a âncora dos sonhos
vem vem comigo comigar este futuro

domingo, outubro 15, 2006

Eu amo as mulheres

Eu amo as mulheres
Olha deixa-me dizer as coisas assim
limpidamente com a simplicidade ática do destino certo
Não não tenhas ciúmes absolutamente não os tenhas
deixa-me antes explicar como te amo nas mulheres que amo
e como em cada ti amo as mulheres desta saga sem fim

Eu amo as mulheres
eu amo o colo variado de me serem o corpo doce quente integral
aquele corpo que aperto entre os dedos de cada noite opressa
eu amo o horizonte que germinam em seu ventre infinito e prolífero

Eu amo as mulheres
eu amo aquela sua alma que balsama a rudeza e a brutalidade
eu amo aquela bondade que borda de equilíbrio cada parte de mim
eu amo aquela mão que no exacto momento
me tonifica reinventando-me

Eu amo as mulheres
eu amo a tenacidade com que desactivam as agruras que me habitam
eu amo a maneira como reiventam a paz
na polpa de cada ser de me serem
eu amo a alma do olhar com que ternamente
acariciam a umbreira de cada mim

Eu amo as mulheres
eu as amo e as choro quando são magoadas torturadas mortas
quando o seu útero é perfurado pela maldade insana
do punhal dos guerreiros
eu amo e morro em cada corpo delas violentado
nas garras de cada selvagem

Eu amo as mulheres e agora vou explicar-te por que amo as mulheres
Sabes eu amo as mulheres porque em cada mulher que amo
Eu amo-te amando-as porque elas são tu quando as amo amando-te
e tu és elas quando te amo em cada página
de me seres em cada ser de te ser nelas

Para cada saudade que em mim ancorava o rizoma imenso do vazio
chegaram finalmente no barco de ti as mulheres que és e sempre serás
na única mulher que amo amando cada mulher

Amor

Sente como nesta sístole dos rins da madrugada
nos desembraiamos em mais uma diástole infinita
inteiros e puros no rigoroso momento do espasmo

O leito deste beijo

Colho-te no horizonte quando as gaivotas afagam o mar arfante
e devagar te deito na areia deste poema com cheiro a maré quente
em cada tu de ti intervalo cada mim no ti-mim de mais este dia
e quando o dorso das águas da maré cheia se retesar
na chegada triunfal do prazer de limo túrgido
aqui nos encontrarão virgulados docemente pelos cílios dos sonhos
no colo da carícia na carícia infinita dos estames deste sonho
amando o sempre espantoso acto de nos recordarmos nos búzios da vida

Nunca as manhãs deixaram de amar o sol
só porque lhes roubámos mais uma vez o leito deste beijo

quinta-feira, outubro 05, 2006

Ciúme

E assim o ciúme rói as noites
porque sabem que as madrugadas chegarão
para lhes disputar o amor dos dias

Aqueles dias lindos

Eu vejo nascer aqueles dias lindos
nos quais as noites abraçam as tardes
e as rolas levam nas asas os seios das manhãs
Eu vejo nascer aqueles dias lindos
nos quais os rios se encostam aos leitos
e os peixes beijam frenéticos as faces da lonjura
Eu vejo nascer aqueles dias lindos
nos quais os oceanos afagam os raios de sol
e as marés se deixam cantar nos búzios da vida
Eu vejo nascer aqueles dias lindos
nos quais tu te deitas na pura polpa deste beijo
e eu te almo na alma de mais este futuro

terça-feira, outubro 03, 2006

Os pontos

O primeiro ser que criou uma linha recta entre dois pontos
esqueceu-se, ser perverso que era, de perguntar à recta
o que ela pensava de semelhante clausura
Neste modesto canto dos versos pensei em criar mais dois pontos
pensei mesmo em criar milhares de pontos
mas depois senti, estúpido e perverso que também sou,
que apenas iria ampliar a prisão da pobre linha recta.

Queres tu, princesa deste poema,
libertar a recta dos pontos que também te tolhem
e tolhendo-te me dão o destino fatal dos pontos?

Dia final

A tristeza não é quando estamos tristes
a tristeza não é porque estamos tristes
também não é porque não podemos deixar de estar tristes
ou porque há um motivo para estarmos tristes
a tristeza nem sequer é porque a própria tristeza está triste

Tristeza é quando no dia final
a areia da praia deixou de amar o mar
e as gaivotas souberam disso