Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

terça-feira, novembro 28, 2006

Para Júlia

Lá onde agora estás, Júlia, que os deuses te protejam para sempre. O que aqui escreveste, aqui continuará. Até sempre, poetisa! Paz à tua alma.

domingo, novembro 26, 2006

As madrugadas

As madrugadas são rios que desaguam em ti
as madrugadas são espelhos com os quais os deuses se miram em ti
as madrugadas são rolas a nascer em ti

as madrugadas são sonhos que o futuro roubou ao passado
para que neste exacto presente eu te fizesse poema

quinta-feira, novembro 23, 2006

Em certo dia do futuro

Disseste-me em certo dia do futuro
quando madrugávamos o sabor quente da manhã
que a tua alma tinha três páginas
a tua, a minha e a que preencheríamos juntos
mas no exacto momento em que comecei a preencher a terceira
nela plantando a adolescência do rio e do canavial
silhuetando a almadia da nossa viagem
por ti esperando no crista da fé
eis que te vejo ancorada na tua página
com a porta definitivamente fechada
para a diagonal cujas pétalas acabam de cair

Na imensidão da savana agora perdida
abandonado pelo embondeiro que restava
viúvo das rolas que não vi
emigro para as lágrimas que chorarei
abraçado ao leito deste momento

No prelo

sábado, novembro 18, 2006

A gaiola

Naquele dia rigorosamente simples
com a mente lavada dos maus sentimentos
na pureza da manhã apenas acordada
segura do seu acto
firme no seu voo
a gaiola saiu à procura do seu pássaro

Sabes meu amor
da solidão das gaiolas?

sexta-feira, novembro 17, 2006

Joana a mamana

Uma bacia com carvão
a capulana
a criança nas costas
o sol em cheio
a espera dos clientes
Joana a mamana
encostada a mais um ponto de interrogação


[Há poemas cujo fim é sempre o começo]

quinta-feira, novembro 16, 2006

Mundo

O mundo é uma cortina que corro para te criar
Criada, vais-te e esfumas-te no ápice de um eco
Eco, refaço-te e retomo-te quando te deitas no futuro
Futuro, guardo-te no passado para te saber no presente

domingo, novembro 12, 2006

Novo livro de poesia

Poemas deste blogue, juntamente com textos do meu Diário de um amante das palavras (vide elo anexo), especialmente os dez diálogos entre Maria e João, farão parte do meu próximo livro de poesia. Não revelo o título por agora.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Mar-te

Nesta vertigem de maré cheia
neste Índico que sorvo nas asas das gaivotas
sou apenas o marinheiro a quem resta mar-te

domingo, novembro 05, 2006

Eu te útero futuro

Sabes que no rigor do sol mais implacável
germina a sombra vasta na qual nos deitamos?
Sabes que quando o cacimbo dorme com as noites
a alma da última fogueira se-te acende por inteiro?
Sabes que em cada artéria, cada veio, cada sulco da vida
ritma o êmbolo subversivo deste procurar-te sem fronteiras?
Sabes que nas alamedas por onde rolam os desejos incontidos
cada palmo das minhas palavras guarda o jeito de seres sendo-me?

Vê como neste sonho eu te útero futuro
no preciso momento em que o poema te afaga

sexta-feira, novembro 03, 2006

Pego nas manhãs

Pego nas manhãs
afago-as deito-as lentamente no teu colo
como se fossem missangas delicadas
emprestadas pela ternura
entretenho-me agora a vesti-las
com o frémito que extraí dos teus lábios
em cada uma deposito
o segredo das noites alugadas ao futuro
faço tudo como vês com aquele jeito das coisas
que estão na alma da espera

Depois de as decompor em pequenas partes de ti
doces e tácteis
e de as moldar com a cadência paciente
com que as conchas amam o mar
para a seguir as recompor
dando-lhes o sentido unificado e definitivo do possível
eis que finalmente
tas restituo no momento em que entras no meu presente

(Sempre se vai depressa quando se vai devagar)