Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

domingo, dezembro 31, 2006

No ventre doce da vagem



Este o derradeiro poema 2006
A todas e todos os que me leram, aqui fica o preito-vagem da minha alma


Sempre me interroguei
sobre os secretos caminhos
do tamarindo
sobre a polpa acre-doce
sobre a vagem inútil

Sempre me perguntei
das razões que levaram
os deuses
a fazerem-nos
dele comer apenas
a polpa e não a vagem

Só ontem vê tu
quando extraía a noite
da cápsula da surpresa
me dei conta
de que a polpa mais não é
do que a cortina misteriosa
do coração da vagem

Por isso a polpa é acre-doce
acre se a tomarmos em si
doce se a tomarmos em ti
na ventre doce da vagem

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Febre exacta

Sumo de caju fresco nesse sorriso estival
seios rijos como massalas adolescentes
ancas apontadas aos meus sentidos
sabor de rio sem freio pulsando

Assim percutes nos meus quadris
a silhueta da febre exacta
tensa e grande como o embondeiro
que invento na savana imensa

sábado, dezembro 23, 2006

Mamana Josefinô

Anónima e discreta
mamana Josefinô
ajeita na esteira
o enorme desvão
do cansaço
e come
o último resto
da mandioca
de amanhã

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Entre almas que se almam

Quando a noite se destapar
afastando para o céu
o lençol das estrelas fluviais
deixando desnuda
a turgidez ávida dos seios

Quando o cacimbo chegar
despindo-se do Zambeze
mas dele guardando
a extensão calma e infinita
dos falos ardentes

Lereis então
ó povos do sonho
ó espíritos do amplexo
que uma vez mais
eles contarão aos pirililampos
(deuses sempre discretos)

nos rins húmidos do capim
na savana deste poema

a crónica espantosa
do acende-apaga-acende
deste amor que sabeis eterno
entre almas que se almam

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Amorar-te

Em dias como este
absolutos de ti
apenas me resta
amorar-te
na frincha do espanto

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Na gesta desta noite

Com o rigor dos gestos puros
inauguro em ti
esta ânsia erecta
este rio que me sinto
nas margens vulvares
com que me comprimes
na gesta desta noite

(Um dia te falarei
de como o cacimbo ama a noite)

domingo, dezembro 17, 2006

As coxas da madrugada

Implacável
perseguidor
com a precisão das facas
inquiridor sem mácula
polícia sem fronteiras
impoluto na busca
fita métrica do rigor
ele quis saber
o que eu fazia
àquela hora
naquele frémito
naquele limiar de mim
naquele exacto ti

E eu pobre pecador
que apenas beijava
as coxas da madrugada
no gesto indiscreto
das causas sem limites

sábado, dezembro 16, 2006

Mar-te-ei

Quando ontem eu te chamar
quando hoje eu te for amanhã
quando amanhã neste momento te sentir
sabe minha querida vertigem
que em cada sonho dos barcos
nos quais oceanoamando-te embarquei
te esperarei nos portos que te fui
mar-te-ei em cada cais de mim

Deixa-me ser-te
Alma-me

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Que amanhã deixaste

Quando desabotoo a alma
botão a botão
manhã após manhã
a montante da surpresa
no umbral de ti-mim

sempre descubro
e me embrenho
nas pegadas
que amanhã deixaste

terça-feira, dezembro 12, 2006

Moldura

Na moldura deste poema
encaixo a saudade que me és

(Agora segura a foz de mim)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Neste instante

Faço das estrelas missangas
com que visto esse teu jeito secreto de seres
Faço das mãos rios que deixo escorrer entre os teus sonhos
quando damos às albas o destino dos amores sem fim
Faço do orvalho os lábios húmidos
que em ti colo quando te deitas nos meus sentidos
Faço das coisas belas da vida o escopro
com que te burilo final e inteira neste instante

Habito as veias da memória que te roubei
e enxerto na saudade a tua última carícia

domingo, dezembro 03, 2006

Ir-se sem ir

À vida chegou como quis
sonho subversão savana
a pureza dos actos sem fronteiras
a frontalidade dos gestos sem cabresto

A cada açaimo opôs a alma das lonjuras
a cada rotina o passo estugado das emoções
a cada calendário a proa das madrugadas
a cada porta a liberdade das rolas

Quando o destino a chamou
(rio amargurado com as margens que o comprimem)
no dia em que tinha inventado o futuro
e com as mãos podara a frescura do cacimbo
ela limitou-se a fazer o que sempre fez
ir-se sem ir
abraçada ao cume de mais um dia
sorrindo nos lábios de mais um sonho