Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

domingo, janeiro 28, 2007

Canavial da memória

Pelo canavial da memória
pés cocegando a areia doce
na margem deste rio que aqui crio
estendo as mãos
carícias na palma dos sentidos

E lá longe faço-te perto
no molde fluvial deste sonho
no exacto momento
em que o último pato levanta voo
casando com a vertigem do horizonte
à garupa dos desejos sem freio
neste belo fim de tarde

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Agora aeu culimar sua corpo

Vem maria esteira estar quente
noite faz conta aquele caju mufana
pôr nosso cabeça xingomana

Mas vou pidir uns coisa maria
você num precisar pidir para aeu amar você
quando você dizer joão precisa amar amim
aeu perder corage
ficar como aquele árvore cabou vontade
e bandonou seus filho folha

Você precisar saber maria de minha coração
amor num precisar falar
amor num ter os hora
amor num ter os lugar
amor num precisar pensar
amor num precisar amor

Você precisar saber mais maria
amor num ser andar
amor num ser cabar
amor sempre ser os coisa de começar
porque quando cabar quando andar
amor ficar como sapato perdeu os cor
num ter sabor

Maria esteira estar quente
noite faz conta aquele caju mufana
pôr nosso cabeça xingomana
precisar começar agora maria
aeu num fala mais
aeu abrir sua machamba doce
agora aeu culimar sua corpo

domingo, janeiro 21, 2007

Almadiando as palavras



Lançamento em Fevereiro.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Assim te gaivoto

Algum dia viste uma gaivota
beber água no Índico?

Não, não viste nunca!
Explico-te: ela não bebe
como pensas
não bebe bebendo
mas simplesmente afaga
roça amando a água para a sorver
docemente em momentos sucessivos
com a beleza fantástica com que
uma folha beija o ar que a ama

Assim te faço
em permanência
assim te gaivoto

terça-feira, janeiro 16, 2007

Amote

Enganados estão os
o que tolamente pensam
que o amo-te
é uma declaração de amor

Não, amo-te é um divórcio
entre o amo e a te
através de um travessão
abandonado pela inércia
das declarações de amor
sempre divorciadas

Por isso eu corrijo o destino
assassinando os travessões
em meu jeito de dizer-te amote

sábado, janeiro 13, 2007

Joana

Joana acomodou filho
Joana amarrou capulana
Joana pilou milho
Joana avivou carvão
Joana amassou xima
Joana terminou caril
Joana estendeu esteira
Joana sentou
Joana comeu
Joana dormiu

Joana acordou
dumba nengue Xiquelene

quinta-feira, janeiro 11, 2007

A estrofe final

Nenhuma página será livre
enquanto uma capa a comprimir
Nenhum rio será livre
enquanto as margens o dominarem
Nenhuma gota de água será livre
enquanto um cano a maltratar


Nenhum futuro será livre
sob o chicote de um passado
Nenhuma árvore será livre
no anonimato da floresta
Nenhum palavra será livre
na gaiola de um escrita

Mas savana onde ancoro os meus sentidos
vê tu esta estranha e final contradição
nenhum dos meus versos será livre
se em ti não encontrar a estrofe final

sábado, janeiro 06, 2007

Chegou a idade da maçanica

Ó gentes das terras livres
à garupa dos dias adolescentes
ó alvéolos dos cais do amor
eis a boa nova que vos trago
chegou a idade da maçanica

As árvores dela estão cheias
lá na Tete amante do Zambeze
maçanica linda sim
mas maçanica-jano também

Fixai ó gentes do prazer
se a comerdes verde cegareis
se a comerdes madura amareis

Esse enfim um segredo banal
o segredo das mulheres que amamos
nos cegam se somos apressados
nos amam se sabemos esperar

Dias pulmonares

Há dias assim
dias vitais
dias pulmonares
dias oxigénio

Aliás devo confessar-te
que os meus dias
são sempre pulmonares
o mecanismo é simples
inspiro-te longamente
pulmono-te
de sangue venoso
passas a sangue arterial
imenso
doce
profundo
espesso
irremediável
és-me a irrigação total
sem obstáculos
sem vincos

A única coisa de singular
(porque célula de ti)
disto tudo
é que apenas te inspiro

A expiração não entrou
na minha biologia afectiva
quando os deuses
me expiraram um dia
para que te pulmonasse
com as narinas deste poema

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Quando do nosso futuro engravidares

Reteso esta espera
torno elástico o frémito
esculpo o lado ágil das coisas
oceano agora a busca
travo-mestro-te

Os sentidos apenas crescem
nos actos que te inventarei
quando do nosso futuro engravidares

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Nuvemo-nos!

As nuvens baixas
que se colam ao rio
(fio infinito em mim)
são memórias de ti
que me ancoram
quando sigo
o destino fluvial

Nuvemo-nos!

terça-feira, janeiro 02, 2007

Este trânsito para ti

Sou fluido sem portos
rio sem margens
lava sem diques
elástico sem repouso
fisga sem retrocesso

Sou o suicídio do fixo
o sulco indelével do movimento
o skate inexorável da vida

E se nunca nada fui
nem serei em-mim
é porque apenas posso ser
este trânsito para ti