Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

sábado, fevereiro 24, 2007

As margens

Esgueiro-me entre os teus sentidos
no preciso momento em que ao rio
outorgo as margens pelas quais
docemente te comprimo
com a esquerda tatuando-te a alma
com a direita inundando-te o corpo

(Nenhum rio perdeu a tua memória)

sábado, fevereiro 17, 2007

Poema táctil

Vou-te contar um segredo
um segredo simples porque breve
um segredo complexo porque íntimo como todos os segredos

O segredo é este:
não é a carícia que em ti faço que me fascina
não é o movimento lento e febril que te arrepia que me fascina
não é sequer o teu corpo retesado que me fascina

O que me fascina é que me fascino quando sinto
que a carícia é o movimento que ainda não comecei
quando comecei no exacto momento em que ainda não o sentiste

Toda a carícia no corpo de um mulher
só tem sentido não quando por ela sentido
mas quando antecipado no futuro sentido
por exemplo no teu que o sentes, no meu que to farei sentir

Diz lá agora: sentes sentindo o que sentirás?

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A água e o copo

Ó vós gentes das causas vãs!
Dizeis-me que um copo é um copo
e que a água é simplesmente a água?
Que tudo se resume ao copo que seguro
e à água que bebo pelo copo?
Pois desenganai-vos vis seres dos sentidos errados!
Sabei então que as coisas são bem diferentes
e escutai esta história que vos vou contar:
A água é uma mulher filha dos sonhos
que os maus espíritos expulsaram
do reino das mulheres ciumentas e exigentes
O copo é um princípe condenado ao exílio serviçal
para servir aqueles que o expulsaram por despeito
do reino dos poderes ínvios
E desde então ao sabor de segredos jamais conhecidos
chama o copo a água entra a água no copo
e por dias consecutivos desaguando em noites sem fim
nos rins suados das madrugadas sôfregas
eles se amam eles se possuem
eles horizontam o leito da pureza sem limites
E se por torpe ironia do destino
um dia a água transbordar do copo
em estalido súbito em chamado forte da natureza
estareis absurdamente errados se pensardes
que foi tibieza de bebedor ou desatino de amante
que tudo ocorreu que tudo saltou as margens
pois simplesmente o que transbordou foi excesso de amor
e excesso de amor sempre encontra de novo o seu copo
como o copo reencontra a sua água

(Por isso minha princesa das água vivas
acontece que te copo sempre que me águas)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

apenas vestida de ti

Aqui neste canavial
neste princípio de noite
na penumbra do nosso rio
quero-te hoje apenas vestida de ti

o futuro que inventei hoje

Sabes mulher do horizonte
cada um de nós tem rigorosamente
apenas duas coisas
o que fomos no futuro
o que seremos no passado
(o presente é apenas uma vírgula)

Mas acontece mulher do horizonte
que este poema inaugura
não o futuro que foi passado
não o passado que foi futuro
menos ainda o presente que esqueci
mas rigorosamente
o futuro que inventei hoje
no sulco deixado pela memória

sábado, fevereiro 10, 2007

na esteira deste poema

Quem te disse que a chuva é chuva
e que o vento é vento?
Quem teve o intolerável desplante
de pensar que chuva e vento são apenas
os modestos êmbolos naturais da vida
uma molhando o presente
o outro soprando o futuro?
Vou-te revelar um segredo:
a chuva é uma mulher
que o vento ama quando ambos
surgem nos poros da natureza.
Sabe que não é por acaso
que a chuva é líquida
depois que o vento a possui
no doce casamento dos elementos naturais.
Sê-me então chuva chuvando-me
que eu te vento ventando-te
na esteira deste poema.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

23 de Fevereiro


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

As coisas simples

Lá onde as andorinhas pintam o horizonte
e as coisas simples se esquecem do que foram
quando foram o que poderiam ter sido

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

naMORAR-TE

Deixa-me naMORAR-TE
aqui à esquina desta vertigem

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

no kanimambo dos nossos corpos

Sou a parte da frente da lembrança
que, aguda nos rins da noite,
se põe a caminho dos sentidos
no momento em que te cacimbo
e tu me savanas por inteiro
no espasmo eriçado do horizonte
no kanimambo dos nossos corpos