Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

quinta-feira, março 29, 2007

serte sem travessão


quando te encostas aos meus sonhos
quando me acaricias os rins do futuro
quando te deitas em cima do que te quero
quando beijas levemente o lado erecto do que sinto
sabe que tudo é afinal apenas uma coisa
a coisa de serte sem travessão
no travessão onde amoramos o amplexo
(escultura de Rodin)

sábado, março 24, 2007

os braços do nosso amor


este rio o meu rio o vosso rio
tem a particularidade serena
de saber que as duas margens
que o abraçam dia e noite
não foram nunca as duas prisões
que os maus espíritos propalaram
mas antes os braços do nosso amor

e quando o rio nos galga ciclicamente
impetuoso em seu destino espasmódico
que tem isso de novidade
senão a novidade dos clímaxes
eternamente fluviais
eternamentos nossos
eternamente renovados?

quinta-feira, março 22, 2007

regaço e âncora


pela polpa dos sentidos
com a ternura das andorinhas
no gesto fresco dos pardais
à varanda da madrugada
na extremidade de mim
habitante do horizonte
invento-te
regaço e âncora

domingo, março 18, 2007

onde moram as rolas?


abotoo a tristeza
com o último resto
da cacimba
que sobrou da noite

diz-me:
onde moram as rolas?

sábado, março 17, 2007

jovens como lanhos


nesta esteira
filhos das palmeiras
na sura da vida
eis-nos
os amantes
jovens como lanhos

sexta-feira, março 16, 2007

planto a tua memória


visto-me sempre de ti
quando te despes de mim
(em cada lágrima minha
planto a tua memória)
___________________
Amor e Psique, 1786-93
Marble, Museu do Louvre, Paris

quinta-feira, março 15, 2007

ficar em ti


nunca me deixes só e aqui
mas se esse for o meu destino
que tu me deixes em desatino
deixa-me então ficar em ti

amanhece comigo


o segredo das crisálidas
é apenas este:
lá nasces amanhã
quando ainda ontem
te inventei hoje
na madrugada de mim
(peço-te: amanhece comigo!)

o camponês que sou


na machamba da tua memória
no gesto firme da minha enxada
semeio a mapira deste poema
tenho o destino que escolhi
escolhi o camponês que te sou

quarta-feira, março 14, 2007

restas tu


a memória apaga-se-me
e, silente, irremediável, desliza-me
por entre os dedos
breve faúlha de um destino

mas lá ao fundo
bem à superfície
incólume
restas tu

fiozinhos das teias de aranha


algum dia reparaste como é triste
o destino daqueles fiozinhos das teias de aranha
que o vento arranca despudoradamente
e que depois baloiçam, trôpegos e incertos,
ao sabor do espantoso anonimato dos acasos?

cada vez que um desses fios tombar
podes crer que é nosso amor que tomba.

domingo, março 11, 2007

A liberdade

Consegui finalmente a liberdade
de não poder libertar-me de ti

(Não são as asas servas dos pássaros
e não são as árvores prisioneiras das raízes
e não são umas e outras por isso livres?)

sábado, março 10, 2007

Mas eu amo você Maria Metical

Maria você muito complicado
você quer mais capulana?
Todo dia você quer
capulana
tchuna
sapato
sutien
comida
coca
nokia azul
nokia tirou azul
dinheiro
carro
casa
meu bem dá isto dá aquilo
meu amor eu amo muito você
beija meu boca
todo dia você assim
parece aquele disco estragado
nos tempos lembra?
Toca sempre mesmo coisa
mas esse seu disco mais complicado
toca sempre minha carteira
meu coração faz conta casa câmbio

Mas eu amo você Maria Metical!

O voo esguio dos cantos de amor

Lá onde estou lá onde estive
lá onde sempre estarei
naquele local de sombra
na varanda dos meus sonhos
(pequena vírgula de paz)
saibam que a única coisa que me move
é apenas o desejo de dar às palavras
aquele jeito que têm as andorinhas
de tatuar no horizonte
o voo esguio dos cantos de amor

E se tiverdes que desamar os actos
amai pela menos as intenções

quinta-feira, março 08, 2007

Para ti, neste dia 8, Dia Internacional da Mulher

Hoje é o dia em que os patos do meu rio
(seres traquinas que namoram as filhas dos peixes)
decidiram esquecer aquele voo altaneiro
com o qual se despedem todos os dias do canavial
e se agarram ao horizonte vestidos de fim de tarde
Tudo porque tu, deusa do rio, chegaste hoje
e hoje mesmo fertilizas o limo deste poema


quarta-feira, março 07, 2007

Nesta enseada do horizonte

Deixa-me semear em teus sentidos este poema acariciante
deixa-me plantar em teus sonhos este jeito de ser-te
deixa-me savanar esta lonjura que és fazendo-te-me perto
aqui nesta enseada do horizonte onde te podo

(e toma esta acácia onde te faço florir indicamente)

sábado, março 03, 2007

Palavras desnecessárias

Eu nunca me recordo de ti
eu nunca penso em ti
eu nunca estou em ti
eu nunca sou ser-em-ti

Naturalmente que agora
me perguntarás a razão
de tão estranhos enunciados
tão feridores do comum senso

Mas tudo é simples
como simples
são as coisas naturais

Olha lá, por que razão haveria
de te recordar
de te pensar
de te estar
de me ser sendo-te
se em cada sulco de ti em mim
sempre me foste e te fui
como uma tatuagem binária dos deuses?
Por que razão haveria de dizer
o que sempre foi e será?
Por que razão haveria de usar palavras
quando sempre te fui no acto de me ser?

O que são palavras senão actos envergonhados
por terem de dizer o que não precisa ser dito?
O que são palavras senão empregados desastrados
que não sabem servir à mesa da realidade?
O que são palavras senão camisas desnecessárias
que querem vestir o que é nudez pura e evidente?

Por isso um dia te farei um poema como este
que despalavre as palavras no meu ser-te