Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

terça-feira, abril 24, 2007

deste poema de amor túrgido de ti


eis-me caminheiro sem paragem das coisas imensas
das coisas sem perímetro nem definição nem identidade
das coisas que roubam o fortuito aos vincos da certeza
das coisas que têm a liberdade por destino
das coisas que gravam a alma no instinto
das coisas que guardam o pólen da mestiçagem
das coisas que dão às conchas o eco das savanas
das coisas que nunca são porque sempre estão a ser
das coisas que têm a imodéstia do infinito
das coisas que enxertam a vertigem das cumeeiras na placidez dos sopés
das coisas em cujos ninhos as rolas criam a vagem dos dias
das coisas que são vírgulas estrangeiras aos pontos finais
das coisas que amadurecem no terreiro dos sonhos
das coisas fadadas a serem a resposta que dispensa a pergunta
das coisas que encostam os seios ao peito do futuro

essas coisas são femininas
essas coisas são o útero onde cresce o feto
deste poema de amor túrgido de ti

a água dos lanhos que beberei


faço rolar na areia do tempo
as páginas da vida
como doces missangas
em seu mistério de coisas simples

e assim as interrogo
na mansidão da memória
nos degraus onde sento o espanto
operário das manhãs sem algemas
sabendo perfeitamente
com o rigor que a alma empresta às dádivas
quanto na história de cada embarque
desembarca a silhueta de mais um sonho
terna como a água do lanhos que beberei

sábado, abril 14, 2007

palhotar mais esta noite de amor

quando o fumo da queimada exaurida
culima o céu protector
quando a última almadia empresta ao rio
a silhueta da sua fragilidade
quando os patos encostam ao longe
o perto da sua história misteriosa e esguia
quando o cheiro doce e quente das plantas fluviais
abraça o canavial túrgido do fim da tarde
quando a noite chega enfim
inteira e quente e cacimbada e ávida

eu deito os teus seios nos meus sentidos
e assim começamos mais uma noite de amor
neste palhotar doce de que apenas são cúmplices
os grilos e os pirilampos que nos protegem

sábado, abril 07, 2007

memória



segunda-feira, abril 02, 2007

o lado fluvial do futuro


tenho saudades do que não senti
tenho especialmente saudades
muito especialmente
da cacimba que amanhã irá molhar
as nervuras nocturnas dos sonhos
estando tu aí e eu aqui

sabes que os poemas são
o lado fluvial do futuro?
a foz de ti?
o eco de ti?

domingo, abril 01, 2007

o irremediável e doce destino


escutai espíritos petulantes
e vós outros deuses fluviais
quem vos disse que o meu Zambeze
(rio táctil que corre nas minhas veias)
nasce onde vocês o fizeram nascer
nas distantes e congolesas terras
e desagua onde vocês o esqueceram
lá para terras do Chinde e dos Podzo?
não, irmãos sobre-humanos,
o Zambeze nasce nela
na princesa fluvial dos meus poemas
e por nela nascer
lhe decreto o irremediável
e doce destino
de apenas em mim desaguar
eu, que sou o canavial do horizonte