Diário de um poeta

Aqui, onde os sonhos possuem as madrugadas e seguem em frente no arrepio do destino destes poemas de amor. Fica comigo, porque estou contigo poemando-te. Se por acaso eu não estiver, sabe que sempre estou e te estou. Sou uma vertigem no-em-ti.

sábado, janeiro 26, 2008

em tudo o que é plural

se por ciúme te ciumo
se por ódio te odio
se por por ambos te ambo
então é porque te amo
porque amar é dois em um

que sabor teria a vida
se nela não coubesse isto
isto de ser-te como sou
de ser-te até nas palavras
que reinvento por ti?

escuta: quando te sinto
dispo logo os sentidos
em tudo o que é plural

terça-feira, janeiro 22, 2008

pendurado na carruagem que não vi

Deito-me à sombra da memória
e estiro ao longo do que ela não é
a saudade de todos aqueles comboios
onde podia ter embarcado
mesmo quando embarquei

a vida é aquela parte da frente
que sempre fica atrás de nós
quando semeamos nas dúvidas
as certezas que tivemos por desleixo

e finalmente erguido e solene
ao último silvo deste comboio
na cumeeira anónima do seu alento de carvão
anexo agora o aceno de adeus que não fiz
pendurado na carruagem que não vi

terça-feira, janeiro 15, 2008

a esteira

vê tu como recacimbamos em cada dia
os espasmos que savanizam as rotinas oxidadas
estavas tu aí e eu aqui
neste sonho que subimos degrau a degrau
nesta busca nesta madrugada nesta ânsia
quando me deu para estender na net
nesta rede de cookies só nossos
a esteira onde fizemos o amor que faremos
(escrito às 01:40)

sexta-feira, janeiro 11, 2008

ao tacto do Índico que acordo

vejo esta gente a correr cedo
como se o coração pudesse voltar atrás
mas eu que tenho o coração sempre atrás
ponho-me, vê tu que poligonal ânsia,
a desabotoar as blusas das acácias
(militante dos sentidos que sou)
para que saibas que até aí te reencontro
subitamente retesada
ao tacto do Índico que acordo
nesta manhã fresca de Maputo

quinta-feira, janeiro 03, 2008

das madrugadas que desaguam em ti

Ainda ninguém
soube descrever o meu rio
em toda a sua pujança contida
em toda a sua alma húmida
nem eu vê tu
eu que o criei

mas hoje o descreverei
puro e fálico
é assim completamente:
abotoo os sentidos
para que não saibas
que num lado está o canavial retesado
no outro mas no mesmo
o que em mim provocas
esta líquida e espérmica busca de ti

assim fazem os menestreis savaneiros
quando livres entoam à vida
o canto das coisas grudadas ao espanto
nas madrugadas que desaguam em ti
(posso ainda rever isto)